6. Antes da primeira palavra, muita coisa já precisa acontecer
A primeira palavra não é o começo da linguagem, é o resultado dela. Entenda as bases pré-linguísticas que precisam se desenvolver antes — e como reconhecê-las no seu bebê.
Existe uma expectativa quase mágica em torno da primeira palavra. Ela costuma ser registrada em cadernos de bebê, comemorada em grupos de família no WhatsApp, contada e recontada como uma história de origem. E é justamente por carregar tanto peso simbólico que a primeira palavra também vira, sem querer, uma fonte enorme de ansiedade quando demora a aparecer.
Só que aqui está uma virada de perspectiva que costuma aliviar bastante as famílias na UNI: a primeira palavra não é o início da linguagem do seu filho. Ela é o resultado visível de um processo que já vem acontecendo, silenciosamente, há muitos meses. Antes de qualquer palavra, existe uma sequência inteira de habilidades — de atenção, de interação, de som, de gesto — que precisa se consolidar primeiro. E quando entendemos essa sequência, paramos de olhar só para a ausência da palavra e passamos a enxergar tudo o que já está, de fato, se construindo.
Sou Cintia Bonfante Pereira, fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. Este sexto capítulo da nossa biblioteca é dedicado a essas bases — o que a fonoaudiologia chama de habilidades pré-linguísticas — porque entender esse alicerce muda completamente a forma como você observa (e estimula) o seu bebê, muito antes de qualquer palavra aparecer.
O que são, exatamente, as habilidades pré-linguísticas
Habilidades pré-linguísticas são todas as competências de comunicação que um bebê desenvolve antes de usar palavras — competências não-verbais, mas absolutamente comunicativas. Contato visual, troca de turnos, gestos, balbucio, compreensão de causa e efeito, imitação: cada uma dessas peças, isoladamente, já é uma forma legítima de comunicação, e juntas, formam a fundação sobre a qual a fala vai ser construída.
Achei importante trazer essas peças com detalhe, porque muitas famílias, sem perceber, pulam direto para “por que ele não fala” sem antes observar se essas bases já estão bem estabelecidas — e, muitas vezes, é justamente aí que mora a resposta.
Resposta e atenção: o ponto de partida, desde os primeiros dias
Ainda nos primeiros dias e semanas de vida, o bebê já começa a responder a luz, som e toque — e, aos poucos, começa a responder especificamente a pessoas: reagir à voz familiar, acalmar-se com o colo conhecido, sorrir em resposta a um rosto. Essas trocas simples — um olhar, um sorriso, uma reação ao próprio nome sendo chamado — são, tecnicamente, os primeiros atos de comunicação humana, muito antes de qualquer som intencional.
Atenção compartilhada: começando a olhar o mundo junto com o outro
Por volta dos 8 a 12 meses, surge uma habilidade que a ciência do desenvolvimento considera um dos marcos mais importantes de toda a infância: a atenção compartilhada, que é a capacidade de coordenar o próprio foco de atenção com o de outra pessoa em relação a um terceiro elemento — um objeto, um evento, algo interessante no ambiente. Ela é tão central para o desenvolvimento da linguagem e da cognição social que vamos dedicar o próximo capítulo inteiro só a ela.
Balbucio: o “treino motor” da fala
O balbucio é, provavelmente, a habilidade pré-linguística mais conhecida pelos pais — mas poucos sabem que ele passa por estágios bem definidos, e que esses estágios têm valor preditivo real sobre a fala que vem depois.
Por volta dos 4 a 6 meses, surge o chamado balbucio marginal: sons ainda mais soltos, como gemidos, gorjeios e as primeiras combinações simples de consoante e vogal, sem muita estrutura.
Entre os 6 e os 10 meses, aparece o balbucio canônico, considerado um marco importante: primeiro na forma reduplicada, com a repetição do mesmo som várias vezes (“ba-ba-ba”, “da-da-da”), e depois na forma variada, combinando sons diferentes em sequência (“ba-da-ga”).
Esse balbucio não é “só ruído” — ele funciona como um verdadeiro treino motor para a fala, ajudando o bebê a desenvolver o controle e a coordenação da língua, dos lábios e da mandíbula que, mais adiante, vão ser usados para formar palavras de verdade. Pesquisas mostram, inclusive, que a idade em que o bebê começa o balbucio canônico é um bom preditor de quando as primeiras palavras vão surgir — e que atrasos nesse balbucio, em alguns casos, podem sinalizar necessidade de atenção precoce.
Gestos: comunicação plena, mesmo sem som
Apontar, acenar, estender os braços pedindo colo, balançar a cabeça para dizer sim ou não, mostrar um objeto ao adulto: todos esses gestos, que costumam surgir entre os 9 e os 12 meses, são formas completas e legítimas de comunicação intencional, mesmo sem envolver nenhuma palavra. Um bebê que usa muitos gestos, mesmo ainda sem falar, está demonstrando algo muito importante: que ele já entendeu a lógica fundamental da comunicação — que é possível influenciar o comportamento do outro através de um sinal direcionado.
Esse é, aliás, um dos motivos pelos quais insistimos tanto, ao longo desta biblioteca, que a ausência de gestos comunicativos é um sinal de alerta mais importante do que a ausência isolada de palavras: os gestos costumam vir antes, e sua presença é um indicador robusto de que a base comunicativa está se desenvolvendo bem.
Compreensão de causa e efeito, e a base da intenção
Por volta dos 6 aos 9 meses, os bebês começam a entender que suas próprias ações provocam reações no ambiente — apertar um botão faz um som, derrubar um objeto faz barulho, chorar traz o adulto até eles. Essa compreensão de causa e efeito é um dos alicerces cognitivos da comunicação intencional: só faz sentido “pedir” alguma coisa, seja por gesto ou por palavra, depois de entender que essa ação tem o poder de gerar uma resposta no outro.
Imitação: aprender copiando
A capacidade de imitar sons, expressões faciais e ações simples dos adultos, que se desenvolve ao longo do primeiro ano de vida, é outro pilar importante — porque grande parte da aquisição da fala acontece justamente por imitação: a criança ouve um som ou uma palavra repetidamente, tenta reproduzi-la, erra, ajusta, tenta de novo. Bebês que imitam pouco, ou que parecem não perceber quando alguém tenta brincar de “imitação” com eles, merecem atenção — não como um sinal isolado de problema, mas como um ponto a mais a observar dentro do conjunto.
Troca de turnos: o ensaio da conversa
Muito antes de conseguir “conversar” de fato, o bebê já começa a praticar a estrutura básica de uma conversa através de brincadeiras de troca de turnos: aquele jogo de fazer um som e esperar a resposta do adulto, ou de esconder o rosto e reaparecer em uma brincadeira de “achou”, ensina, na prática, o ritmo de alternância que qualquer conversa (falada ou não) depende — eu falo, você responde, eu respondo de volta.
Por que entender essas bases muda a forma de observar o seu filho
Se você chegou a este ponto do artigo talvez pensando “meu filho de 1 ano ainda não fala nenhuma palavra”, eu quero te propor um exercício diferente: em vez de focar exclusivamente na ausência da palavra, observe cada uma dessas bases, uma por uma. Ele responde ao nome? Compartilha atenção com você? Balbucia com variedade de sons? Usa gestos para pedir ou mostrar coisas? Imita ações simples? Participa de brincadeiras de troca de turnos?
Se a resposta for “sim” para a maioria dessas perguntas, isso é uma informação extremamente valiosa: significa que as bases estão se construindo bem, e a fala tende a vir na sequência, dentro do tempo próprio de cada criança. Se várias dessas respostas forem “não”, esse conjunto de sinais — muito mais do que a ausência isolada da palavra — é o que realmente justifica buscar uma avaliação.
A cena do consultório: o bebê que “não fazia nada”, segundo os pais
Recebi, uma vez, um casal preocupadíssimo com o filho de 13 meses que, segundo eles, “não fazia nada, não falava nenhuma palavra”. Durante a avaliação, no entanto, o quadro observado foi bem diferente do que a frase “não faz nada” sugeria: o bebê olhava para a mãe e depois para o brinquedo, claramente tentando compartilhar o interesse (atenção compartilhada); balbuciava bastante, com boa variedade de sons; apontava para pedir coisas; e reagia com entusiasmo a brincadeiras de esconde-esconde, alternando os turnos com clareza.
Ou seja: ele tinha, na verdade, uma base pré-linguística sólida e ativa — só ainda não tinha “encaixado” isso em palavras faladas, o que, considerando a idade dele, estava dentro da faixa de variação esperada. Conseguir mostrar para os pais tudo que já estava, de fato, acontecendo (e que eles simplesmente não sabiam reconhecer como comunicação) foi, sozinho, um alívio enorme — e um direcionamento claro de que a estimulação da fala em si, e não uma investigação ampla, era o próximo passo.
O que eu faria se esse fosse meu filho
Se meu filho ainda não estivesse falando, antes de qualquer coisa eu faria esse mesmo exercício de observação estruturada das bases pré-linguísticas, em vez de focar só na ausência da palavra. Eu prestaria atenção especial ao balbucio (a variedade de sons, não só a quantidade), aos gestos comunicativos, e à presença de atenção compartilhada — porque, juntos, esses três elementos costumam ser os melhores preditores de que a fala está a caminho, mesmo quando ainda não apareceu.
Eu também brincaria bastante de “conversas” sem palavras — trocas de olhar, imitação de sons e caretas, brincadeiras de esconde-esconde — sabendo que essas interações, por mais simples que pareçam, estão ativamente construindo a estrutura que vai sustentar a fala mais adiante.
Mitos e verdades
“Balbucio é só ruído, não tem relação real com a fala.” Mito. O balbucio é considerado, na literatura científica, um verdadeiro treino motor para a fala, e sua qualidade e variedade têm valor preditivo real sobre a aquisição posterior de palavras.
“Se meu filho usa muitos gestos mas nenhuma palavra, isso não conta como comunicação de verdade.” Mito. Gestos comunicativos intencionais são uma forma plena e legítima de comunicação, e sua presença é, inclusive, um sinal mais tranquilizador do que sua ausência.
“Atenção compartilhada é um conceito técnico demais, não dá para os pais perceberem isso em casa.” Mito. É perfeitamente possível observar em casa: repare se o seu filho olha para você e depois para um objeto interessante, tentando “te mostrar” alguma coisa — esse simples movimento já é atenção compartilhada em ação.
“Bebês que imitam pouco só têm um temperamento mais quieto, não precisa se preocupar.” Mito parcial. Temperamento realmente influencia a expressividade, mas uma ausência importante de imitação, junto com outros sinais, merece ser observada com atenção, e não descartada automaticamente como só “jeito de ser”.
“O que realmente importa é a primeira palavra, o resto é só enrolação até chegar lá.” Mito. Como vimos ao longo deste artigo, é exatamente o contrário: as bases pré-linguísticas são o que sustenta e prediz a fala, e observá-las de perto é muito mais informativo do que esperar ansiosamente por uma palavra isolada.
O que fazer, na prática, para fortalecer essas bases
Responda a todo balbucio do seu bebê como se fosse uma frase de verdade — isso ensina, na prática, o ritmo da troca comunicativa.
Brinque de imitação: faça sons, caretas e gestos simples, e espere para ver se o seu filho tenta reproduzir, celebrando cada tentativa, mesmo imperfeita.
Aponte para objetos interessantes e nomeie-os, criando oportunidades repetidas de atenção compartilhada.
Brinque de esconde-esconde, de “cadê-achou” e de outras brincadeiras de alternância, que treinam diretamente a troca de turnos.
Valorize qualquer gesto comunicativo do seu filho, respondendo prontamente, para reforçar que gestos também “funcionam” para se comunicar.
Perguntas frequentes
1. Até que idade é normal um bebê não ter nenhuma palavra, mesmo com boas bases pré-linguísticas? Como já vimos em artigos anteriores desta série, a ausência total de palavras até os 16 meses já merece atenção, mesmo quando as bases pré-linguísticas parecem sólidas — vale observar de perto e considerar uma avaliação.
2. Meu bebê balbucia bastante, mas sempre o mesmo som. Isso é motivo de preocupação? Vale observar se, ao longo dos meses, essa variedade vai aumentando. Um balbucio muito repetitivo, sem evolução ao longo do tempo, é um sinal a acompanhar, mais do que a simples presença do balbucio.
3. Todo bebê passa pela fase de balbucio canônico? Sim, é considerado um marco quase universal do desenvolvimento típico, geralmente entre os 6 e os 10 meses. A ausência completa dessa fase merece investigação.
4. Atenção compartilhada e contato visual são a mesma coisa? Não. Contato visual é olhar nos olhos de alguém. Atenção compartilhada é mais complexa: envolve alternar o olhar entre uma pessoa e um objeto, coordenando o foco de atenção com o do outro — um passo além do simples contato visual.
5. Gestos “substituem” a fala ou atrapalham o desenvolvimento dela? Nem um nem outro. Gestos são uma ponte natural para a fala, não um obstáculo. A grande maioria das crianças usa gestos e palavras juntos por um bom tempo, até a fala se tornar dominante.
6. Meu filho não gosta de brincar de imitação. Devo insistir bastante? Ofereça oportunidades leves e frequentes, sem forçar. Algumas crianças precisam de mais repetições antes de se engajarem, e isso, isoladamente, não é motivo de alarme.
7. Existe algum jeito de “acelerar” essas bases pré-linguísticas? Não existe atalho mágico, mas interações responsivas e frequentes, como as sugeridas neste artigo, criam o ambiente mais favorável possível para essas habilidades se desenvolverem no seu tempo.
8. Quando devo me preocupar com atraso nas bases pré-linguísticas, e não só na fala? Sempre que vários desses marcos — resposta a sons, atenção compartilhada, balbucio, gestos, imitação, troca de turnos — estiverem ausentes ou muito reduzidos ao mesmo tempo, especialmente depois dos 12 meses.
9. Essas bases pré-linguísticas têm relação com outras áreas do desenvolvimento, além da fala? Sim, forte relação. Atenção compartilhada e imitação, por exemplo, também sustentam o desenvolvimento cognitivo e social mais amplo, muito além da fala especificamente.
10. Se meu filho tem todas essas bases bem desenvolvidas, posso ter certeza de que a fala vai vir sem problemas? Não é uma garantia absoluta, mas é, sim, um sinal muito mais tranquilizador do que a ausência delas. Ainda assim, o acompanhamento contínuo do desenvolvimento continua sendo a forma mais segura de garantir que tudo siga no caminho certo.
Olhar para as bases pré-linguísticas, e não só para a ausência da primeira palavra, muda completamente a forma como você acompanha o desenvolvimento do seu filho — de uma espera ansiosa por um marco específico, para uma observação mais rica e informada de tudo que já está, de fato, em construção.
➜ Leia também: Meu filho de 2 anos ainda não fala. É normal?, Quando devo me preocupar com atraso na fala? e Como estimular a fala do meu filho em casa? — os capítulos anteriores desta biblioteca.
➜ Leia a seguir: O que é atenção compartilhada? — o próximo capítulo, um mergulho completo em uma das habilidades mais importantes de todo o desenvolvimento infantil.
Sobre a autora
Cintia Bonfante Pereira é fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. É especialista em identificar precocemente as barreiras que impactam o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e da aprendizagem, com atuação em atraso de desenvolvimento, Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, síndromes e intervenção precoce baseada em evidências. Na UNI, acredita-se que toda criança tem potencial para se desenvolver quando as barreiras que impedem esse caminho são identificadas com precisão — por isso, a avaliação não se limita a contar palavras ou observar sintomas: ela busca compreender o desenvolvimento como um todo, para construir uma intervenção verdadeiramente individualizada.
Referências científicas
Oller, D. K. et al. Estudos sobre estágios do balbucio (marginal e canônico) e seu valor preditivo para a aquisição da fala.
Universitat Pompeu Fabra — Before First Words. Early Babbling: Precursors of Language.
The SLP Next Door. Prelinguistic Skills: The Building Blocks of Communication.
Mize, L. 11 Prelinguistic Skills That Matter Most Before Your Child Starts Talking.
Mundy, P., Sullivan, L., & Mastergeorge, A. M. (2009). A Parallel and Distributed-Processing Model of Joint Attention, Social Cognition and Autism. Autism Research.
Communication Community. Early Communication Skills in Young Children: Prelinguistic Development.
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