12. O Modelo Denver é só para crianças com autismo?
O Modelo Denver é amplamente associado ao autismo, mas sua origem e seus princípios vão além disso. Entenda para quais outras condições essa abordagem pode ser indicada.

Fechamos o capítulo anterior desta biblioteca com uma pergunta em aberto, e chegou a hora de respondê-la com toda a profundidade que ela merece: o Modelo Denver, tão associado ao universo do autismo em praticamente tudo que se escreve sobre ele, serve exclusivamente para essa condição, ou seu alcance é mais amplo do que normalmente se imagina?
Sou Cintia Bonfante Pereira, fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. Este décimo segundo capítulo fecha a nossa primeira trilha completa, dedicada à fala e à linguagem, e ele faz isso respondendo a uma dúvida que recebo com frequência de famílias cujos filhos apresentam atraso de linguagem, síndromes genéticas ou outras condições do neurodesenvolvimento, sem diagnóstico de autismo.
Voltando à origem: um detalhe que muda tudo
No capítulo anterior, mencionei um detalhe da história do Modelo Denver que prometi retomar: quando o modelo nasceu, em 1981, na Universidade do Colorado, ele foi desenvolvido como um programa de pré-escola voltado para crianças entre 2 e 5 anos com autismo ou outras condições do desenvolvimento, da linguagem ou do comportamento. Ou seja: desde sua concepção original, o Modelo Denver nunca foi pensado como uma abordagem exclusiva para o espectro autista — ele nasceu como um programa de estimulação do desenvolvimento de forma mais ampla, e o autismo foi, ao longo dos anos, o público em que ele recebeu o maior volume de pesquisa científica e validação formal.
Esse detalhe histórico importa porque ajuda a entender por que existe, hoje, tanta associação direta entre “Modelo Denver” e “autismo”: não porque a abordagem seja exclusiva dessa condição, mas porque foi nela que a maior parte dos estudos, incluindo o ensaio clínico randomizado mais citado, concentrou sua atenção.
Por que os princípios do modelo fazem sentido para além do autismo
Se você releu com atenção o capítulo anterior, deve ter notado que os princípios centrais do Modelo Denver — seguir o interesse natural da criança, priorizar afeto positivo compartilhado, trabalhar em múltiplos contextos do dia a dia, envolver os pais como agentes ativos — não são específicos de nenhuma condição em particular. São, na verdade, princípios gerais e bem estabelecidos de como crianças pequenas aprendem melhor, de forma geral.
Isso explica por que abordagens semelhantes ao Modelo Denver — reunidas, na literatura científica, sob o termo intervenções desenvolvimentais-comportamentais naturalísticas — vêm sendo estudadas e aplicadas com bons resultados para outros perfis de crianças, incluindo atraso global do desenvolvimento, atraso específico de linguagem, síndromes genéticas (como já discutimos, por exemplo, sobre a síndrome de Down em nossa outra trilha dedicada especificamente a esse tema), e outras condições do neurodesenvolvimento que impactam comunicação e aprendizagem.
O que muda quando o modelo é usado fora do contexto do autismo
Embora os princípios centrais permaneçam os mesmos, um profissional experiente ajusta a aplicação do Modelo Denver de acordo com o perfil específico de cada criança. Algumas diferenças práticas costumam aparecer:
Em crianças com atraso de linguagem sem outras condições associadas, o foco costuma recair mais fortemente sobre comunicação e vocabulário, com menor ênfase em áreas como imitação social ou regulação sensorial, que costumam ser trabalhadas com mais intensidade em quadros dentro do espectro autista.
Em crianças com síndromes genéticas que envolvem hipotonia ou atraso motor mais amplo, a aplicação costuma se integrar de forma mais próxima com fisioterapia e terapia ocupacional, complementando o trabalho de comunicação.
Em crianças com atraso global do desenvolvimento, o modelo tende a abranger um leque mais amplo de metas simultâneas, refletindo a natureza mais abrangente do atraso.
Em todos esses casos, a essência do método — brincadeira com propósito terapêutico, motivação natural, participação ativa dos pais — permanece a mesma, mudando apenas o conteúdo específico das metas trabalhadas.
A cena do consultório: quando o “rótulo” quase impediu o acesso
Recebi, uma vez, uma família cujo filho apresentava um atraso de linguagem expressiva significativo, sem qualquer sinal compatível com autismo na avaliação. Os pais, ao pesquisarem sobre abordagens de intervenção precoce, encontraram informações sobre o Modelo Denver, mas hesitaram em perguntar sobre ele durante a consulta, porque, segundo relataram, “vimos que é só para autismo, achamos que não se aplicava”.
Esse mal-entendido, bastante comum, quase os levou a descartar uma abordagem que, na verdade, se encaixava muito bem no perfil do menino. Ao aplicarmos os princípios do modelo, adaptados ao objetivo específico de ampliar o vocabulário e a combinação de palavras dele, os resultados apareceram de forma consistente ao longo dos meses seguintes — o mesmo tipo de resposta positiva documentada na literatura, mesmo fora do contexto específico do autismo que motivou boa parte da pesquisa original.
O que eu recomendaria a uma família nessa situação
Se meu filho tivesse um atraso de linguagem, ou qualquer outra condição do neurodesenvolvimento, sem diagnóstico de autismo, eu não descartaria abordagens naturalísticas como o Modelo Denver só por associá-las erroneamente a uma condição específica. Eu perguntaria diretamente ao profissional responsável se os princípios dessa abordagem, ou de abordagens semelhantes, poderiam ser adaptados ao perfil do meu filho — porque, como vimos, a resposta, na maioria dos casos, tende a ser sim.
Ao mesmo tempo, eu também confiaria no julgamento clínico do profissional para adaptar as prioridades específicas do plano terapêutico ao perfil real do meu filho, e não simplesmente exigir a aplicação idêntica do protocolo original, que foi desenvolvido e mais estudado dentro de outro contexto.
Mitos e verdades
“O Modelo Denver foi criado especificamente para autismo, e é usado só nesse contexto.” Mito. Desde sua concepção original em 1981, o modelo foi pensado para crianças com autismo ou outras condições do desenvolvimento, da linguagem ou do comportamento, e não como uma abordagem exclusiva de um único quadro.
“Se meu filho não tem autismo, não faz sentido nem perguntar sobre o Modelo Denver.” Mito, e um dos equívocos mais custosos que uma família pode ter, como mostra o exemplo do consultório. Vale sempre perguntar ao profissional se os princípios da abordagem podem se aplicar ao perfil específico do seu filho.
“A aplicação do modelo é idêntica, independentemente da condição da criança.” Mito. Os princípios centrais permanecem os mesmos, mas um profissional experiente ajusta as metas e prioridades específicas de acordo com o perfil individual de cada criança.
“Como a maior parte da pesquisa é sobre autismo, não existe respaldo científico para usar o modelo em outras condições.” Mito parcial. Embora o volume de pesquisa específica sobre outras condições ainda seja menor do que sobre autismo, os princípios subjacentes — intervenções desenvolvimentais-comportamentais naturalísticas — têm respaldo mais amplo na literatura sobre desenvolvimento infantil em geral, para além de uma única condição.
“Só vale a pena usar essa abordagem se a criança tiver um diagnóstico fechado, seja ele qual for.” Mito. Como já vimos no capítulo sobre intervenção precoce, sinais de atraso ou de risco já são suficientes para justificar o início de uma intervenção especializada, com ou sem diagnóstico formal definido.
Perguntas frequentes
1. O Modelo Denver funciona para atraso de linguagem sem nenhuma outra condição associada? Sim. Os princípios naturalísticos da abordagem podem ser adaptados para focar especificamente em metas de comunicação e vocabulário, mesmo na ausência de outras condições associadas.
2. Crianças com síndromes genéticas, como a síndrome de Down, podem se beneficiar do Modelo Denver? Sim, especialmente quando integrado a outras terapias específicas para as necessidades motoras e sensoriais que costumam acompanhar essas condições.
3. O Modelo Denver é indicado para TDAH? Embora não seja a abordagem mais estudada especificamente para TDAH, seus princípios gerais de motivação natural e aprendizagem através de interesse genuíno podem ser incorporados ao plano terapêutico de crianças pequenas com dificuldades de atenção, dentro de uma avaliação individualizada.
4. Preciso pedir especificamente pelo “Modelo Denver”, ou existe outro nome para abordagens parecidas? Vale perguntar tanto pelo nome específico quanto pelo termo mais amplo “intervenção desenvolvimental-comportamental naturalística”, já que diferentes profissionais podem usar nomenclaturas ligeiramente diferentes para abordagens com princípios semelhantes.
5. Um profissional pode recusar aplicar o Modelo Denver por meu filho não ter autismo? Pode acontecer, dependendo da formação específica do profissional, mas isso reflete mais a especialização de cada terapeuta do que uma limitação real da abordagem em si — vale buscar profissionais com experiência mais ampla, se essa for a abordagem desejada pela família.
6. Existe alguma pesquisa específica sobre o uso do modelo fora do contexto do autismo? O volume de pesquisa é menor comparado ao autismo, mas cresce de forma consistente, especialmente dentro da categoria mais ampla das intervenções desenvolvimentais-comportamentais naturalísticas aplicadas a diferentes perfis de atraso do desenvolvimento.
7. A idade de indicação muda quando o modelo é usado fora do contexto do autismo? Não necessariamente. A faixa etária de maior indicação (12 a 48 meses para o ESDM, ou até 5 anos no modelo original) continua sendo relevante para qualquer perfil de criança que se beneficie dessa abordagem.
8. Como sei se o Modelo Denver é a escolha certa para o meu filho, independentemente do diagnóstico? A melhor forma é através de uma avaliação especializada, que vai considerar o perfil específico do seu filho e recomendar, entre as diversas abordagens disponíveis, aquela mais alinhada às necessidades identificadas.
9. É verdade que muitos profissionais restringem, sem necessidade, o uso do modelo só a quadros de autismo? É uma tendência real, dado o peso da pesquisa concentrada nessa condição, mas, como vimos ao longo deste capítulo, essa restrição não reflete necessariamente uma limitação da abordagem em si.
10. Esse capítulo encerra a trilha sobre fala e linguagem desta biblioteca? Sim! Com os doze capítulos que construímos juntos, você já tem uma base completa sobre desenvolvimento da fala e da linguagem, da ausência da primeira palavra até as abordagens de intervenção mais estudadas cientificamente. As próximas trilhas desta biblioteca vão explorar outras áreas igualmente importantes do desenvolvimento infantil.
Encerramos, com este capítulo, a primeira trilha completa da nossa biblioteca. Ao longo desses doze textos, caminhamos desde a pergunta mais simples e mais comum — “meu filho ainda não fala, isso é normal?” — até os fundamentos científicos mais profundos sobre neuroplasticidade e intervenção baseada em evidência. Se você chegou até aqui, carrega agora muito mais do que informações soltas: carrega uma forma organizada e cientificamente embasada de observar, entender e apoiar o desenvolvimento da comunicação do seu filho.
➜ Leia também: O que é o Modelo Denver? e O que é intervenção precoce? — os capítulos anteriores desta trilha.
➜ Comece do início: Meu filho de 2 anos ainda não fala. É normal? — o primeiro capítulo desta trilha completa sobre fala e linguagem.
Sobre a autora
Cintia Bonfante Pereira é fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. É especialista em identificar precocemente as barreiras que impactam o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e da aprendizagem, com atuação em atraso de desenvolvimento, Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, síndromes e intervenção precoce baseada em evidências. Na UNI, acredita-se que toda criança tem potencial para se desenvolver quando as barreiras que impedem esse caminho são identificadas com precisão — por isso, a avaliação não se limita a contar palavras ou observar sintomas: ela busca compreender o desenvolvimento como um todo, para construir uma intervenção verdadeiramente individualizada.
Referências científicas
SAGE Encyclopedia of Intellectual and Developmental Disorders. Early Start Denver Model — histórico da origem do Modelo Denver em 1981, na Universidade do Colorado.
Schreibman, L. et al. (2015). Naturalistic Developmental Behavioral Interventions: Empirically Validated Treatments for Autism Spectrum Disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, 45(8), 2411–2428.
Rogers, S. J., Herbison, J., Lewis, H., Pantone, J., & Reis, K. (1986). An Approach for Enhancing the Symbolic, Communicative, and Interpersonal Functioning of Young Children with Autism or Severe Emotional Handicaps. Journal of the Division for Early Childhood.
Vismara, L. A. et al. (2018). Telehealth Parent Training in the Early Start Denver Model: Results from a Randomized Controlled Study. Focus on Autism and Other Developmental Disabilities, 33(2), 67–79.
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