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11. O que é o Modelo Denver?

O Modelo Denver é um dos programas de intervenção precoce mais estudados do mundo. Entenda como ele funciona, o que a ciência mostra sobre sua eficácia, e o que esperar de uma sessão.

No capítulo anterior, falamos sobre o conceito de intervenção precoce e sobre a ciência que sustenta sua importância. Chegou a hora de conhecer, com detalhe, um dos programas específicos de intervenção precoce mais estudados e mais respaldados por evidência científica no mundo: o Modelo Denver, ou, em sua versão mais atual e conhecida internacionalmente, o Early Start Denver Model (ESDM).

Sou Cintia Bonfante Pereira, fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. Se você já ouviu esse nome em uma consulta, em uma indicação de terapia, ou em uma busca no Google, mas nunca teve uma explicação clara do que ele realmente significa, este capítulo foi feito para isso.

Uma breve história: de onde veio o Modelo Denver

O Modelo Denver nasceu em 1981, na Universidade do Colorado, criado pela psicóloga Sally Rogers e colaboradores, como um programa de pré-escola diário baseado em brincadeira, vínculo e desenvolvimento da linguagem, voltado para crianças entre 2 e 5 anos com autismo ou outras condições do desenvolvimento, da linguagem ou do comportamento. Já vamos voltar a esse detalhe da história — “ou outras condições” — no próximo capítulo, porque ele é mais importante do que parece.

Ao longo das décadas seguintes, o modelo foi sendo refinado e testado cientificamente, até que, nos anos 2000, Sally Rogers uniu forças com a pesquisadora Geraldine Dawson para desenvolver uma versão adaptada especificamente para bebês e crianças bem pequenas, entre 12 e 48 meses: o Early Start Denver Model, formalizado e publicado em manual científico em 2010.

Como o Modelo Denver funciona, na prática

O ESDM é classificado, na literatura científica, como uma intervenção desenvolvimental-comportamental naturalística — uma categoria de abordagens que combina dois elementos que, historicamente, já foram tratados como opostos: a estrutura e a base científica da análise do comportamento aplicada, com a sensibilidade e a naturalidade das abordagens desenvolvimentais baseadas em brincadeira e vínculo.

Na prática, isso significa que a intervenção acontece dentro de atividades lúdicas e cotidianas — brincadeiras, rotinas de alimentação, banho, passeio —, em vez de sessões estruturadas de mesa com cartões e comandos repetitivos. O terapeuta (ou o próprio pai, treinado no modelo) segue o interesse espontâneo da criança, usando esse interesse como motivação natural para ensinar habilidades de comunicação, atenção compartilhada, imitação, brincadeira simbólica e cognição, sempre com controle compartilhado entre adulto e criança, e usando princípios comportamentais bem estabelecidos, como reforço e modelagem, dentro dessas interações naturais.

O programa trabalha, de forma integrada, praticamente todas as áreas do desenvolvimento: comunicação receptiva e expressiva, habilidades sociais, imitação, brincadeira, cognição, motricidade grossa e fina, e habilidades de autonomia — sempre respeitando o perfil individual de cada criança, dentro de um plano personalizado de metas.

O que a ciência mostra: o estudo que colocou o modelo no mapa

O Modelo Denver, na sua versão ESDM, tem algo relativamente raro no universo de intervenções para a primeira infância: um ensaio clínico randomizado e controlado, publicado em um periódico científico de peso, testando sua eficácia de forma rigorosa.

O estudo, conduzido por Geraldine Dawson e colaboradores, comparou dois grupos de crianças de 18 a 30 meses: um recebendo o ESDM por dois anos, e outro recebendo os tratamentos comumente disponíveis na comunidade. Os resultados mostraram uma diferença expressiva a favor do grupo ESDM: um ganho médio de 17,6 pontos em medidas cognitivas, contra 7 pontos no grupo de comparação, além de melhora significativa em comportamento adaptativo e maior chance de mudança na classificação diagnóstica ao longo do acompanhamento. Estudos de seguimento, anos depois, mostraram que boa parte desses ganhos se mantinha ao longo do tempo, e pesquisas complementares chegaram a identificar mudanças mensuráveis na atividade cerebral das crianças que passaram pelo programa.

Desde então, o modelo acumulou mais de uma dezena de estudos adicionais, em diferentes contextos e formatos de aplicação — incluindo versões conduzidas por pais, treinados diretamente pelos terapeutas — consolidando-se como uma das intervenções para a primeira infância com maior volume de evidência científica publicada até hoje.

Os princípios centrais que sustentam o modelo

Alguns elementos aparecem de forma consistente em qualquer aplicação bem feita do Modelo Denver:

  • Motivação natural: a criança aprende dentro do que já desperta seu interesse genuíno, em vez de ser forçada a se engajar em atividades artificiais.

  • Afeto positivo compartilhado: as interações priorizam momentos de conexão emocional real entre adulto e criança, não apenas o cumprimento de tarefas.

  • Múltiplos contextos de aprendizagem: as habilidades são trabalhadas em diferentes situações do dia a dia, favorecendo a generalização — ou seja, que a criança use a habilidade aprendida em vários contextos, não só dentro da sala de terapia.

  • Participação ativa dos pais: os cuidadores são treinados a aplicar as mesmas estratégias dentro da rotina familiar, ampliando enormemente a quantidade de horas de estimulação que a criança recebe ao longo da semana.

  • Acompanhamento sistemático do progresso: o modelo utiliza um sistema estruturado de avaliação contínua de metas, ajustando o plano terapêutico conforme a criança evolui.

A cena do consultório: o que o Modelo Denver parece, de verdade

Uma dúvida comum das famílias que chegam à UNI já tendo ouvido falar do Modelo Denver é: “isso vai parecer uma aula, com a criança sentada em uma cadeira?”. A resposta, quase sempre, surpreende positivamente. Recordo de uma sessão em que a criança estava genuinamente absorta empilhando blocos coloridos — e foi exatamente dentro dessa brincadeira, sem interromper o interesse dela, que trabalhamos nomeação de cores, troca de turnos (a terapeuta pedindo “agora eu” antes de colocar um bloco), imitação de ações, e até uma tentativa inicial de combinar duas palavras (“bloco caiu”).

Para os pais que observavam, aquilo parecia, à primeira vista, “só uma brincadeira”. Mas cada momento daquela interação tinha uma meta terapêutica específica por trás, cuidadosamente planejada, embutida de forma natural dentro do que já despertava o interesse genuíno da criança. Essa é, talvez, a melhor forma de explicar a essência do Modelo Denver: terapia disfarçada de brincadeira, mas brincadeira nunca disfarçada de terapia forçada.

O que eu recomendaria a uma família considerando o Modelo Denver

Se uma família estivesse considerando o Modelo Denver para o filho, eu recomendaria, primeiro, confirmar que o profissional responsável tem formação e certificação específica no modelo, já que sua aplicação correta depende de treinamento estruturado — não é uma abordagem que se replica só lendo sobre o assunto. Eu também recomendaria fortemente que os pais participem ativamente do processo de treinamento oferecido pelo modelo, já que a evidência científica mostra, de forma consistente, ganhos maiores quando os cuidadores aplicam as estratégias dentro da rotina familiar, e não apenas durante as sessões formais.

Mitos e verdades

“O Modelo Denver é uma abordagem nova, sem muita evidência ainda.” Mito. Sua origem remonta a 1981, e sua versão atual (ESDM) já acumula mais de quinze anos de estudos publicados, incluindo um dos poucos ensaios clínicos randomizados na área de intervenção precoce para o desenvolvimento infantil.

“O Modelo Denver é igual à ABA tradicional, só com outro nome.” Mito. Embora utilize princípios da análise do comportamento aplicada, o ESDM se diferencia por sua base fortemente naturalística e centrada na brincadeira espontânea, sendo classificado como uma categoria própria dentro do campo das intervenções comportamentais: as intervenções desenvolvimentais-comportamentais naturalísticas.

“Só terapeutas podem aplicar o Modelo Denver, os pais não têm participação real.” Mito. A participação ativa dos pais, devidamente treinados, é um dos pilares do modelo, e está associada a resultados ainda melhores na literatura científica.

“O Modelo Denver funciona só dentro do consultório.” Mito. Uma de suas características centrais é justamente a aplicação em múltiplos contextos do dia a dia, favorecendo que a criança use as habilidades aprendidas em diferentes situações, não apenas na sala de terapia.

“Todo profissional que diz aplicar o Modelo Denver está, de fato, seguindo o protocolo original.” Mito, infelizmente. A aplicação correta e fiel ao modelo depende de formação certificada específica — vale sempre perguntar sobre essa formação antes de iniciar o acompanhamento.

Perguntas frequentes

1. O Modelo Denver é uma terapia de fala, uma terapia ocupacional, ou o quê exatamente? É um modelo abrangente de intervenção precoce, que integra diversas áreas do desenvolvimento — comunicação, cognição, social, motor — dentro de uma única abordagem, geralmente conduzida por profissionais com formação em fonoaudiologia, psicologia ou terapia ocupacional, entre outros.

2. A partir de que idade o Modelo Denver pode ser usado? Sua versão específica para bebês e crianças pequenas, o ESDM, é indicada entre os 12 e os 48 meses, embora o Modelo Denver original tenha sido desenvolvido para crianças de 2 a 5 anos.

3. Quantas horas por semana são necessárias para ver resultado? Os estudos originais utilizaram cargas intensivas, de cerca de 15 a 20 horas semanais entre terapia formal e aplicação pelos pais, mas o formato pode ser adaptado conforme a realidade e a necessidade de cada família, sempre orientado pela equipe responsável.

4. O Modelo Denver substitui outras terapias, como fonoaudiologia? Não necessariamente. Ele pode ser conduzido, inclusive, por fonoaudiólogos com formação específica no modelo, incorporando objetivos de linguagem dentro de sua estrutura naturalística, ou pode ser combinado com outras terapias complementares, conforme a necessidade da criança.

5. É verdade que existe um treinamento oficial de certificação no Modelo Denver? Sim. Existe um processo de certificação estruturado, com diferentes níveis de formação, oferecido pelos criadores e por instituições autorizadas, para garantir a fidelidade na aplicação do modelo.

6. O Modelo Denver funciona para crianças que ainda não falam nenhuma palavra? Sim, é justamente um dos públicos para os quais o modelo foi desenvolvido, trabalhando as bases pré-linguísticas de comunicação que já discutimos em capítulos anteriores desta biblioteca, além das primeiras palavras propriamente ditas.

7. Existe alguma contraindicação para o uso do Modelo Denver? Não há contraindicações amplamente reconhecidas na literatura, mas cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional para confirmar se essa é a abordagem mais adequada ao perfil específico da criança.

8. Como sei se a terapia que meu filho está recebendo realmente segue o Modelo Denver? Observe se as sessões acontecem de forma naturalística, dentro de brincadeiras e atividades de interesse genuíno da criança, com metas específicas sendo trabalhadas de forma integrada, e pergunte diretamente ao profissional sobre sua formação e certificação no modelo.

9. O Modelo Denver é caro e difícil de encontrar? A disponibilidade varia conforme a região e o sistema de saúde local. Vale pesquisar profissionais certificados na sua região ou buscar orientação sobre programas de treinamento parental, que costumam ampliar o acesso à abordagem mesmo com acompanhamento profissional mais pontual.

10. O próximo capítulo desta biblioteca vai falar sobre outras aplicações do Modelo Denver? Sim — o capítulo seguinte é dedicado especificamente a essa pergunta: será que o Modelo Denver serve só para autismo, ou seu uso pode ser mais amplo do que se costuma imaginar?


Conhecer a fundo o Modelo Denver é entender, na prática, como toda a ciência da neuroplasticidade e da intervenção precoce que discutimos no capítulo anterior se transforma em um método concreto, testado e replicável — brincadeira com propósito, carinho com direção, e evidência científica sustentando cada etapa do caminho.

➜ Leia também: O que é intervenção precoce? e O que é intenção comunicativa? — os capítulos anteriores desta biblioteca.

➜ Leia a seguir: O Modelo Denver é só para crianças com autismo? — o capítulo final desta trilha, sobre a aplicação mais ampla dessa abordagem.

Sobre a autora

Cintia Bonfante Pereira é fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. É especialista em identificar precocemente as barreiras que impactam o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e da aprendizagem, com atuação em atraso de desenvolvimento, Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, síndromes e intervenção precoce baseada em evidências. Na UNI, acredita-se que toda criança tem potencial para se desenvolver quando as barreiras que impedem esse caminho são identificadas com precisão — por isso, a avaliação não se limita a contar palavras ou observar sintomas: ela busca compreender o desenvolvimento como um todo, para construir uma intervenção verdadeiramente individualizada.

Referências científicas

  • Dawson, G., Rogers, S., Munson, J. et al. (2010). Randomized, Controlled Trial of an Intervention for Toddlers with Autism: The Early Start Denver Model. Pediatrics, 125(1), e17–e23.

  • Rogers, S. J., & Dawson, G. (2010). Early Start Denver Model for Young Children with Autism: Promoting Language, Learning, and Engagement. Guilford Press.

  • Schreibman, L. et al. (2015). Naturalistic Developmental Behavioral Interventions: Empirically Validated Treatments for Autism Spectrum Disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, 45(8), 2411–2428.

  • Rogers, S. J., & Lewis, H. (1989). An Effective Day Treatment Model for Young Children with Pervasive Developmental Disorders. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 28, 207–214.

  • Estelle, M. B. et al. Estudo de seguimento de longo prazo dos ganhos obtidos com o Early Start Denver Model.

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