9. O que é intenção comunicativa?
Intenção comunicativa é o fio condutor de tudo que já vimos nesta biblioteca. Entenda o que é, seus três estágios de desenvolvimento, e por que ela é mais importante do que contar palavras.
Chegamos a um capítulo que funciona como o fecho de tudo que construímos até aqui nesta biblioteca. Falamos sobre bases pré-linguísticas, sobre atenção compartilhada, sobre o apontar — e, se você prestou atenção, vai perceber que existe um fio condutor passando por trás de cada um desses temas. Esse fio se chama intenção comunicativa, e é hora de trazê-lo para o centro da conversa.
Sou Cintia Bonfante Pereira, fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. Se você entender bem o conceito deste artigo, muitas das dúvidas que trouxeram você até os capítulos anteriores desta biblioteca vão fazer ainda mais sentido — porque, no fundo, é a intenção comunicativa, muito mais do que a quantidade de palavras, que a fonoaudiologia do desenvolvimento observa com mais atenção nos primeiros anos de vida.
O que é, de fato, intenção comunicativa
Intenção comunicativa é a compreensão, por parte da criança, de que seus comportamentos podem influenciar deliberadamente o comportamento de outra pessoa — e o uso consciente desses comportamentos com esse objetivo específico. Em outras palavras: é a diferença entre um comportamento que apenas acontece e tem um efeito por acaso, e um comportamento que a criança produz de propósito, sabendo (ainda que de forma simples e não verbalizada) que ele vai gerar uma reação em alguém.
Pode parecer um conceito abstrato, mas ele tem uma base científica bem estabelecida, formulada pela pesquisadora Elizabeth Bates e colaboradores em um dos estudos mais influentes da área, que descreveu três estágios claros nesse processo. Vamos passar por cada um deles.
Estágio 1: comportamento sem intenção (fase perlocutória)
Do nascimento até por volta dos 8 a 10 meses, o bebê produz uma série de comportamentos — choro, sorriso, olhar, movimentos do corpo — que têm efeito sobre os adultos ao redor, mas que ainda não são, tecnicamente, comunicação intencional. Nessa fase, é o adulto quem atribui significado ao comportamento do bebê: ele chora, e a mãe interpreta “deve estar com fome”; ele sorri, e o pai interpreta “está feliz de me ver”. O bebê ainda não está, propriamente, “tentando dizer” alguma coisa — mas essas interpretações constantes dos adultos são exatamente o que vai, aos poucos, ensinar ao bebê que seus comportamentos têm efeito sobre o mundo.
Estágio 2: comunicação intencional, ainda sem palavras (fase ilocutória)
Por volta dos 8 a 12 meses, algo muda de forma importante: o bebê começa a usar gestos e vocalizações de propósito, com a clara intenção de comunicar algo a alguém — mesmo ainda sem usar nenhuma palavra convencional. Esse é o estágio em que aparecem comportamentos como apontar (que já vimos em detalhe no capítulo anterior), estender objetos para mostrar ao adulto, puxar a mão de alguém em direção a algo desejado, ou olhar alternadamente entre um objeto e uma pessoa — exatamente a atenção compartilhada que discutimos dois capítulos atrás.
Esse é, sem dúvida, o estágio mais importante para observarmos quando o assunto é atraso de linguagem, porque é aqui que a intenção comunicativa se torna clara e observável, mesmo sem nenhuma palavra ainda presente. Uma criança de 14 meses que ainda não fala nenhuma palavra, mas que já está solidamente neste estágio — apontando, mostrando, alternando o olhar com intenção clara — está em uma situação de desenvolvimento bem diferente de uma criança da mesma idade que ainda não demonstra nenhum desses comportamentos.
Estágio 3: comunicação com palavras (fase locutória)
A partir de aproximadamente 12 meses, a criança começa a incorporar palavras convencionais — ainda que poucas, ainda que pronunciadas de forma imperfeita — a essa intenção comunicativa que já vinha se desenvolvendo. É importante entender que a palavra, nesse momento, não substitui os gestos e vocalizações da fase anterior — ela se soma a eles, e por um bom tempo a criança continua combinando gestos e palavras juntos, até que a fala se torne, gradualmente, o meio dominante de comunicação.
Por que esse conceito muda a forma de observar uma criança
Aqui está o ponto mais importante deste artigo, e talvez de toda esta biblioteca até agora: quando avaliamos uma criança pequena, o que realmente nos diz mais sobre o desenvolvimento dela não é, isoladamente, quantas palavras ela já fala — é em qual desses estágios de intenção comunicativa ela está, e com que solidez.
Isso explica por que, ao longo desta série, insistimos tanto em observar gestos, atenção compartilhada e o apontar, além da simples contagem de palavras. Uma criança que já demonstra comunicação intencional rica através de gestos, mesmo sem nenhuma palavra, está construída sobre uma base sólida — a fala tende a vir, porque a lógica fundamental da comunicação (eu posso influenciar o outro através de um sinal direcionado) já está bem estabelecida. Já uma criança sem comunicação intencional clara, mesmo que produza alguns sons ou até palavras isoladas de forma mais mecânica, representa um quadro clínico que merece atenção mais próxima.
A cena do consultório: a diferença que a intenção faz
Recebi, uma vez, duas crianças em semanas seguidas, ambas com 20 meses e ambas sem nenhuma palavra clara — a mesma queixa principal, praticamente as mesmas palavras usadas pelos pais para descrever a situação. Mas as avaliações revelaram quadros completamente diferentes.
A primeira criança demonstrava comunicação intencional rica: apontava para pedir e para mostrar, puxava a mão dos pais em direção a objetos, alternava o olhar entre a pessoa e o objeto desejado, e ficava visivelmente frustrada quando não conseguia se fazer entender — um sinal, inclusive, de que ela sabia exatamente o que queria comunicar. A segunda criança, por outro lado, raramente iniciava qualquer forma de comunicação direcionada, olhava pouco para os adultos durante as brincadeiras, e não demonstrava esse tipo de frustração comunicativa.
Apesar da queixa idêntica — “não fala nada” —, essas duas crianças seguiram caminhos de investigação bem diferentes, porque a intenção comunicativa por trás da ausência de palavras contava histórias completamente distintas. Esse é, talvez, o exemplo mais claro que tenho para mostrar por que a avaliação fonoaudiológica olha tão além da simples contagem de palavras.
O que eu faria se esse fosse meu filho
Se meu filho ainda não falasse, a pergunta que eu mais me faria não seria “quantas palavras ele já disse”, mas “o quanto ele já demonstra querer se comunicar comigo, de qualquer forma que seja”. Eu observaria se ele tenta chamar minha atenção, se fica frustrado quando não consegue se fazer entender (um sinal, paradoxalmente, positivo, porque mostra intenção clara), se ele inicia interações em vez de só reagir a elas.
Esse olhar, focado na intenção por trás do comportamento, e não apenas na forma final (palavra, gesto ou som), é o que eu mais valorizaria — e é exatamente esse olhar que eu recomendo que você, como pai ou mãe, também comece a praticar no dia a dia com o seu filho.
Mitos e verdades
“O que importa mesmo é a criança falar palavras, o resto é só enrolação.” Mito, e talvez o mito mais importante de desfazer em toda esta biblioteca. A intenção comunicativa, mesmo sem palavras, é a base sobre a qual a fala se constrói, e sua presença ou ausência é mais informativa do que a simples contagem de palavras.
“Frustração comunicativa é sempre um sinal ruim, e devo evitá-la a todo custo.” Mito. Uma criança que se frustra por não conseguir se fazer entender está demonstrando, na verdade, uma intenção comunicativa clara — o que é, clinicamente, um sinal mais tranquilizador do que a ausência total dessa frustração.
“Gestos são uma fase que a criança abandona assim que começa a falar.” Mito. Gestos e palavras coexistem por um bom tempo, se somando, até que a fala gradualmente se torne dominante — não existe uma troca abrupta de um pelo outro.
“Duas crianças da mesma idade, com a mesma quantidade de palavras (zero), estão sempre no mesmo nível de desenvolvimento.” Mito, como mostra claramente o exemplo do consultório. A qualidade e a intenção por trás da comunicação, mesmo sem palavras, pode ser completamente diferente entre duas crianças com a “mesma queixa”.
“Só um especialista consegue perceber os estágios de intenção comunicativa, os pais não têm como identificar isso em casa.” Mito. Com as descrições que demos neste artigo, é perfeitamente possível para os pais observarem, no dia a dia, sinais claros de intenção comunicativa — apontar, puxar a mão, alternar o olhar, mostrar objetos — mesmo sem nenhuma formação técnica.
Perguntas frequentes
1. Em que estágio de intenção comunicativa meu filho deveria estar aos 12 meses? Idealmente, já transitando da fase perlocutória (sem intenção clara) para a fase ilocutória (comunicação intencional através de gestos e vocalizações), mesmo que ainda sem palavras.
2. É possível uma criança falar algumas palavras, mas ainda não ter intenção comunicativa clara? Sim, embora seja menos comum. Algumas crianças produzem palavras de forma mais mecânica ou ecolálica, sem necessariamente usá-las com intenção comunicativa clara e direcionada — esse padrão, quando presente, merece atenção especial na avaliação.
3. Frustração excessiva da criança por não conseguir se comunicar é sempre normal? Uma frustração pontual, ligada à dificuldade momentânea de se expressar, é esperada e até positiva, como sinal de intenção comunicativa. Frustração muito intensa e constante, associada a comportamentos agressivos frequentes, merece ser discutida com um profissional para ajustar estratégias.
4. Como sei se meu filho já está na fase ilocutória (comunicação intencional sem palavras)? Observe se ele direciona comportamentos claramente para você — como apontar, puxar sua mão, ou alternar o olhar entre você e um objeto — com o objetivo aparente de conseguir algo ou compartilhar algo com você.
5. Ausência de intenção comunicativa sempre indica autismo? Não isoladamente. É um sinal importante dentro de um conjunto mais amplo de observações, que só uma avaliação completa e multidisciplinar pode interpretar com segurança.
6. Esse conceito de estágios de intenção comunicativa vale só para a fala, ou também para outras formas de comunicação, como a CAA? Vale para qualquer forma de comunicação. Crianças que utilizam Comunicação Aumentativa e Alternativa também passam por esse desenvolvimento de intenção comunicativa, que sustenta o uso funcional de pictogramas e outros recursos, exatamente como sustenta a fala.
7. Um bebê muito pequeno, de 3 ou 4 meses, já tem intenção comunicativa? Ainda não, tecnicamente. Nessa idade, o bebê está na fase perlocutória, produzindo comportamentos que têm efeito sobre os adultos, mas ainda sem a intenção consciente de comunicar algo específico.
8. Por que os fonoaudiólogos dão tanta importância a esse conceito na avaliação? Porque ele revela a base real sobre a qual a linguagem vai se construir, permitindo diferenciar quadros clínicos muito diferentes que, à primeira vista, parecem idênticos (como no exemplo das duas crianças de 20 meses sem palavras).
9. Posso estimular a intenção comunicativa do meu filho em casa? Sim, e de forma bem parecida com o que já discutimos nos capítulos anteriores: responda prontamente a qualquer tentativa de comunicação, mesmo pequena, valorizando a intenção por trás dela, não apenas a forma final.
10. Esse conceito muda depois que a criança já fala fluentemente? A intenção comunicativa continua sendo relevante ao longo de toda a vida — é a base que sustenta qualquer ato comunicativo, verbal ou não —, mas seu valor como marcador de desenvolvimento é especialmente importante nos primeiros anos, antes e durante a emergência da fala.
Compreender a intenção comunicativa é, talvez, a lente mais poderosa que oferecemos até agora nesta biblioteca: ela te ajuda a enxergar, por trás de cada gesto, cada olhar e cada tentativa de comunicação do seu filho, o quanto ele já está, de fato, construindo o caminho para a fala — mesmo quando as palavras ainda não chegaram.
➜ Leia também: Meu filho aponta pouco. Isso é normal?, O que é atenção compartilhada? e Antes da primeira palavra, muita coisa já precisa acontecer — os capítulos anteriores desta biblioteca.
➜ Leia a seguir: O que é intervenção precoce? — o próximo capítulo, sobre como todos esses conceitos se transformam em ação terapêutica concreta.
Sobre a autora
Cintia Bonfante Pereira é fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. É especialista em identificar precocemente as barreiras que impactam o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e da aprendizagem, com atuação em atraso de desenvolvimento, Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, síndromes e intervenção precoce baseada em evidências. Na UNI, acredita-se que toda criança tem potencial para se desenvolver quando as barreiras que impedem esse caminho são identificadas com precisão — por isso, a avaliação não se limita a contar palavras ou observar sintomas: ela busca compreender o desenvolvimento como um todo, para construir uma intervenção verdadeiramente individualizada.
Referências científicas
Bates, E., Camaioni, L., & Volterra, V. (1975). The Acquisition of Performatives Prior to Speech. Merrill-Palmer Quarterly, 21(3), 205–226.
Bates, E., Benigni, L., Bretherton, I., Camaioni, L., & Volterra, V. (1979). The Emergence of Symbols: Cognition and Communication in Infancy. Academic Press.
Wetherby, A. M., Cain, D. H., Yonclas, D. G., & Walker, V. G. (1988). Analysis of Intentional Communication of Normal Children from the Prelinguistic to the Multiword Stage. Journal of Speech and Hearing Research, 31(2), 240–252.
Wetherby, A. M., Warren, S. F., & Reichle, J. (Eds.) (1998). Transitions in Prelinguistic Communication. Brookes Publishing — base para escalas clínicas como a Communication Complexity Scale.
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