8. Meu filho aponta pouco. Isso é normal?
O apontar é um dos gestos mais estudados do desenvolvimento infantil. Entenda os dois tipos que existem, quando cada um surge e por que apontar pouco pode ser um sinal importante.
Existe um gesto, simples e quase invisível no dia a dia, que a ciência do desenvolvimento estuda há décadas com um nível de detalhe surpreendente: o apontar. Pesquisadores já dedicaram meta-análises inteiras, reunindo dezenas de estudos, só para entender o que esse gesto — erguer o dedo indicador em direção a alguma coisa — revela sobre o caminho que a linguagem de uma criança está seguindo.
Se você chegou a este artigo porque percebeu que o seu filho aponta pouco, ou quase nada, quero te dar duas coisas: uma explicação clara sobre por que esse gesto importa tanto, e uma forma organizada de observar se essa ausência é motivo real de atenção.
Sou Cintia Bonfante Pereira, fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. Este oitavo capítulo da nossa biblioteca continua diretamente a conversa que começamos nos capítulos anteriores sobre atenção compartilhada — porque, como você vai ver, os dois temas estão profundamente conectados.
Nem todo apontar é igual: os dois tipos que existem
Um dos achados mais consistentes da pesquisa sobre desenvolvimento infantil é que existem, na verdade, dois tipos bem diferentes de apontar, com funções e significados distintos:
Apontar imperativo é usado para pedir algo — a criança aponta para o biscoito na prateleira porque quer que você alcance para ela. A função aqui é conseguir alguma coisa através da ação do adulto.
Apontar declarativo é usado para compartilhar interesse — a criança aponta para um cachorro passando na rua, olha para você, e volta a olhar para o cachorro, como se dissesse “olha que legal, você também está vendo isso?”. Não existe pedido nenhum aqui, só o desejo de dividir uma experiência.
Essa distinção não é só um detalhe acadêmico. As pesquisas mostram, de forma consistente, que o apontar declarativo é um preditor mais forte do desenvolvimento futuro da linguagem do que o apontar imperativo — porque ele exige uma compreensão mais sofisticada do outro como alguém com quem se pode compartilhar uma experiência mental, não apenas como um meio de conseguir o que se quer.
Quando o apontar costuma surgir
O apontar com o dedo indicador (diferente de simplesmente estender a mão inteira em direção a algo) costuma surgir por volta dos 12 meses, embora exista uma variação individual considerável — pesquisas mostram que, mesmo dentro de grupos de bebês com desenvolvimento típico, uma boa parte ainda não usa o apontar com dedo indicador de forma consistente exatamente nessa idade, tanto na função imperativa quanto na declarativa.
O apontar declarativo, especificamente, tende a se consolidar um pouco depois do imperativo, refletindo justamente essa maior complexidade cognitiva por trás dele. É esperado que, ao longo do segundo ano de vida, esse gesto vá se tornando cada vez mais frequente e mais claro.
Por que o apontar importa tanto para quem estuda linguagem
A relação entre apontar e linguagem é uma das mais estudadas de toda a área de desenvolvimento infantil, e uma meta-análise recente, reunindo décadas de pesquisa, confirmou o que estudos menores já vinham apontando: existe uma associação real e mensurável entre o apontar do bebê e o desenvolvimento posterior da linguagem, tanto na compreensão quanto na produção de palavras.
Uma pesquisa longitudinal comparando bebês com desenvolvimento típico e bebês com atraso de linguagem encontrou algo particularmente revelador: por volta dos 12 meses, a maioria dos bebês com atraso de linguagem ainda não produzia nenhum apontar com o dedo indicador — nem imperativo, nem declarativo —, enquanto boa parte do grupo com desenvolvimento típico já apresentava, pelo menos, o início desse gesto. Aos 18 meses, a diferença entre os dois grupos ficou ainda mais nítida, com os bebês de desenvolvimento típico apontando significativamente mais.
Esse tipo de achado é o que sustenta uma recomendação prática importante: a ausência de apontar, especialmente perto dos 12 a 15 meses, é um sinal que merece atenção — não porque o apontar em si seja indispensável, mas porque ele costuma refletir habilidades cognitivas e sociais mais amplas, ligadas diretamente à comunicação intencional.
Apontar e autismo: outro ponto que merece nuance
Assim como fizemos no capítulo sobre atenção compartilhada, é importante tratar esse tema com cuidado. A ausência de apontar, principalmente do apontar declarativo, está entre os sinais precoces reconhecidos em protocolos de triagem para o Transtorno do Espectro Autista — e por bons motivos: apontar declarativo depende diretamente da capacidade de atenção compartilhada, que já vimos ser um marcador importante nessa área.
Mas, repetindo o que já disse no capítulo anterior: a ausência de apontar, isoladamente, não fecha diagnóstico nenhum. Ela é uma peça de um quebra-cabeça maior, que só faz sentido junto com outras observações — atenção compartilhada, contato visual, interesse social, resposta ao nome, entre outras. Uma criança que aponta pouco, mas que apresenta boa atenção compartilhada, bom contato visual e interesse social ativo, está em uma situação clínica bem diferente de uma criança sem nenhum desses sinais.
A cena do consultório: o apontar que existia, mas em outro formato
Recebi, certa vez, um menino de 14 meses cujos pais estavam certos de que “ele nunca aponta para nada”. Durante a avaliação, no entanto, percebemos que ele de fato tentava direcionar a atenção dos pais para coisas interessantes — só que, em vez de usar o dedo indicador esticado (o formato “clássico” do apontar), ele usava a mão toda aberta, em um gesto mais parecido com um “alcançar” generalizado, sempre acompanhado de olhar para os pais e vocalizações animadas.
Esse detalhe foi importante porque mostrou que a função comunicativa do apontar — compartilhar e direcionar atenção — já estava presente, mesmo que a forma motora específica ainda não tivesse amadurecido. Orientamos os pais a, sempre que ele fizesse esse gesto de mão aberta, nomear o objeto e também modelar o apontar com dedo indicador junto, como forma de ajudar essa forma mais refinada a emergir. Em poucas semanas, o apontar com dedo indicador já havia surgido.
O que eu faria se esse fosse meu filho
Se meu filho apontasse pouco, minha primeira pergunta não seria só “ele aponta ou não aponta”, mas uma investigação um pouco mais ampla: ele tenta, de alguma forma, direcionar minha atenção para coisas interessantes, mesmo que não seja com o dedo indicador clássico? Ele compartilha atenção comigo de outras formas? Ele tem interesse ativo em interagir?
Se a resposta fosse “sim” para essas perguntas mais amplas, eu me sentiria relativamente tranquila, e trabalharia ativamente para modelar e incentivar o apontar propriamente dito, exatamente como no exemplo do consultório. Se a resposta fosse “não” — se meu filho não tentasse compartilhar atenção de nenhuma forma, com ou sem apontar —, eu buscaria uma avaliação mais ampla, sem demora, já que aí estaríamos falando de um conjunto mais amplo de sinais, e não de um gesto isolado.
Mitos e verdades
“Apontar é só um gesto motor, não tem relação profunda com a linguagem.” Mito. Décadas de pesquisa, incluindo meta-análises recentes, confirmam uma associação consistente entre o apontar do bebê e o desenvolvimento posterior da linguagem, tanto receptiva quanto expressiva.
“Se meu filho estica a mão toda para pedir coisas, isso já conta como apontar.” Parcialmente verdade. Esse gesto costuma preceder o apontar com dedo indicador propriamente dito, e já demonstra intenção comunicativa, mas vale continuar observando e modelando a forma mais específica do apontar.
“Apontar declarativo e apontar imperativo são igualmente importantes para prever a linguagem.” Mito. A pesquisa mostra que o apontar declarativo — usado para compartilhar interesse, não para pedir algo — é um preditor mais forte do desenvolvimento da linguagem do que o apontar imperativo.
“A ausência de apontar já indica autismo.” Mito. É um sinal de atenção dentro de um conjunto mais amplo de observações, especialmente quando combinado com outras dificuldades de atenção compartilhada e interação social — nunca um sinal isolado e suficiente.
“Não dá para ‘ensinar’ uma criança a apontar, isso surge sozinho ou não surge.” Mito. Como mostra o exemplo do consultório, modelar o gesto de forma consistente, respondendo com entusiasmo a tentativas anteriores (mesmo que em formatos diferentes), pode ajudar ativamente esse gesto a emergir.
Como estimular o apontar em casa
Aponte você mesma para coisas interessantes durante o dia a dia, nomeando o que está vendo, para servir de modelo.
Sempre que seu filho tentar direcionar sua atenção de qualquer forma — mesmo com a mão toda aberta, ou só com o olhar —, reaja com entusiasmo e nomeie o que ele está mostrando.
Use livros com figuras grandes e claras, incentivando-o a apontar para os elementos enquanto vocês leem juntos.
Brinque de “cadê” com objetos escondidos, incentivando-o a apontar para onde acha que o objeto está.
Evite antecipar demais os pedidos dele. Espere um instante antes de entregar o que ele quer, dando espaço para que ele tente comunicar essa vontade de alguma forma, incluindo o apontar.
Perguntas frequentes
1. Com que idade meu filho deveria começar a apontar? O apontar com dedo indicador costuma surgir por volta dos 12 meses, com uma variação individual considerável nas semanas e meses seguintes.
2. Meu filho aponta só para pedir coisas, nunca para mostrar. Isso é preocupante? Vale observar de perto e estimular o apontar declarativo, já que ele é o mais associado ao desenvolvimento da linguagem, mas a presença do apontar imperativo já é, em si, um sinal positivo de intenção comunicativa.
3. Apontar com a mão toda aberta, em vez do dedo indicador, conta como apontar de verdade? É considerado uma forma mais imatura do mesmo gesto, e costuma evoluir para o apontar com dedo indicador com o tempo, especialmente quando estimulado.
4. Meu filho de 18 meses ainda não aponta de jeito nenhum. Devo me preocupar? Sim, esse é um sinal que já justifica avaliação, especialmente combinado com outras observações sobre atenção compartilhada e interação social.
5. Apontar pouco sempre significa atraso de linguagem? Não necessariamente sozinho, mas a ausência de apontar está associada, nas pesquisas, a maior chance de atraso de linguagem, o que já justifica atenção e acompanhamento.
6. Existe diferença entre apontar e só olhar fixamente para um objeto? Sim. Apontar é um gesto ativo de direcionamento de atenção. Olhar fixamente, sozinho, não envolve necessariamente essa intenção de compartilhar ou comunicar algo com outra pessoa.
7. Posso “forçar” meu filho a apontar, segurando o dedo dele? Não é recomendado forçar fisicamente. É mais eficaz modelar o gesto você mesma e responder com entusiasmo às tentativas espontâneas dele, mesmo que ainda imperfeitas.
8. Apontar tem relação com o balbucio e outras habilidades pré-linguísticas que já vimos nos capítulos anteriores? Sim, forte relação. Todas essas habilidades — balbucio, atenção compartilhada, apontar — fazem parte do mesmo sistema de bases pré-linguísticas que sustentam a fala.
9. Crianças bilíngues ou expostas a mais de um idioma apontam mais tarde? Não há evidência de que o ambiente bilíngue, isoladamente, atrase o surgimento do apontar, já que esse gesto não depende de um idioma específico.
10. Se meu filho aponta bastante, isso garante que a fala vai se desenvolver sem problemas? Não é uma garantia absoluta, mas é, sim, um sinal bastante positivo. O apontar é uma das bases mais bem documentadas do desenvolvimento da linguagem, e sua presença consistente é um indicador tranquilizador.
O apontar, esse gesto tão simples, carrega dentro de si uma quantidade impressionante de informação sobre como a comunicação do seu filho está se desenvolvendo. Observá-lo com esse olhar mais atento — não só “ele aponta ou não”, mas “de que forma, com que função, com que frequência” — te dá uma ferramenta real para entender melhor esse momento do desenvolvimento dele.
➜ Leia também: O que é atenção compartilhada? e Antes da primeira palavra, muita coisa já precisa acontecer — os capítulos anteriores desta biblioteca.
➜ Leia a seguir: O que é intenção comunicativa? — o próximo capítulo, reunindo tudo o que já vimos sob um único conceito central.
Sobre a autora
Cintia Bonfante Pereira é fonoaudióloga há mais de 15 anos e diretora da UNI — Centro de Estimulação Precoce. É especialista em identificar precocemente as barreiras que impactam o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e da aprendizagem, com atuação em atraso de desenvolvimento, Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, síndromes e intervenção precoce baseada em evidências. Na UNI, acredita-se que toda criança tem potencial para se desenvolver quando as barreiras que impedem esse caminho são identificadas com precisão — por isso, a avaliação não se limita a contar palavras ou observar sintomas: ela busca compreender o desenvolvimento como um todo, para construir uma intervenção verdadeiramente individualizada.
Referências científicas
Colonnesi, C., Stams, G. J., Koster, I., & Noom, M. J. (2010). The Relation Between Pointing and Language Development: A Meta-Analysis. Developmental Review, 30(4), 352–366.
Cochet, H., & Byrne, R. W. (2016). Evolutionary Origins of Human Pointing: Great Apes and Human Infants. Journal of Comparative Psychology.
Colonnesi et al. e revisão meta-analítica atualizada em ScienceDirect (2022). The Relationship Between Infant Pointing and Language Development: A Meta-Analytic Review.
Estudo comparativo sobre trajetórias de desenvolvimento do apontar em bebês com e sem atraso de linguagem. International Journal of Environmental Research and Public Health.
Bates, E., Camaioni, L., & Volterra, V. (1975). The Acquisition of Performatives Prior to Speech. Merrill-Palmer Quarterly, 21(3), 205–226.
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